Remééédio

Remééédio…
remééédio…
remééédio…

Como ri com meus sobrinhos quando ouviram a gravação que fiz pra meu despertador celulóico  me lembrar de tomar a porção da noite. É, to tomando remédios já em porções de diferentes pílulas. Já nem me incomodo com isso e dá pra fazer graça, mas quando quiseram que minha filha tomasse fiquei alarmada e caiu a ficha: esses remééédios que estou tomando estão afetando meu discernimento e produzindo uma crise de identidade que é quase pior que a doença que eles pretendem combater. Igual (igual mesmo, nos dois casos a doença pode ser fatal) aos efeitos colaterais devastadores da químio usada contra cancer, é o caso de saber o que é pior, o remédio ou a doença.

Isso me fez pensar no planeta. Continue lendo


eu uso óculos

As meninas do Leblon nunca olharam pra mim, too sad. Mas também eu não posso ter certeza. Uso óculos para perto. Às vezes esqueço de tirar e o mundo ali mais longinho fica embaçado, indistinguível. Óculos pra ler, pra fazer pequenos trabalhos manuais.

Os meus, pendurados no pescoço, vivem cheios de tinta, poeira, sujeira. Pipoca também. Meus óculos, como eu, são loucos por pipoca. A pipoca quebrando nos dentes faz um ruído que preenche o mundo de alegrias infantis. Tão boas e tão difíceis de explicar, descrever, precisar, que sempre chegam antes ao coração que os poréns da mente pretensamente lúcida.

Por isso meus óculos também usam pipoca.

Santos dilemas, batman… óculos felizes de pipoca não servem para enxergar. O mundo embaça de sal ou doce, ou só pipoca.

Perdida entre a lente, a pipoca e o algo enfumaçado ali adiante, só consigo escolher não ver. Então, decidida a resolver o problema, comprei um óculos bifocal, pra ver longe (sem grau) e perto. Achei que veria melhor, mas hoje olho pra ele… e está sujo de pipoca.

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a terceira fada

Histórias gostam de ter trios, trios de fadas e de bruxas sempre me encantaram e minha identidade sempre foi com a mais desajeitada, gorda, feia, distraída e, claro, bondosa. Sempre quis ser inteligente como as outras, magra como as outras, objetiva como as outras, habilidosa como as outras, serena como as outras. Hoje continuo a mais desajeitada, gorda e com uma inteligência não só difícil de entender, mas até de conseguir chamar de inteligência. Que seja. O fato é que me distanciei pra construir um mundo cuja construção provasse que não sou menos e o interessante é que, justamente naquelas coisas em que esse mundo me mostra inadequada aos padrões é onde eu me mostro mais hábil, inteligente e, ouso dizer, uma gorda graciosa.

Reinventar a vida é sempre possível. Faz muito tempo que, nas minhas andanças descalças, percebi que nosso passado e nosso futuro são maravilhosamente voláteis, dependentes apenas do olhar que comanda o momento. Assim, esse meu mundo em construção olha pra mim e diz: eis-me aqui, especialmente feito pra ti, viva o momento.

Nunca vou viver o momento se continuar sendo a terceira fada, pois, nesse mundo em construção, o construtor é a primeira. Arrisque-se! digo-me a toda hora. Amanhã será um lindo dia! Sim! Hoje também😉

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Paraíso idílico ou jardim de inverno? parte 2

Paraíso idílico ou jardim de inverno? Ambos. Onde? No meu apartamento. Agora, na parte 2, vou falar sobre a divisória. A parte 1 falou de como ganhei o espaço, a divisória, por incrível que pareça, me deu mais espaço ainda. Continue lendo


Paraíso idílico ou jardim de inverno? parte 1

Paraíso idílico ou jardim de inverno? Ambos. Onde? No meu apartamento. A parte 1 fala de como ganhei o espaço. Continue lendo


Porções de afeto: Doce de casca de limão com açúcar mascavo

 

Doce de casca de limão com açúcar mascavo

Vegano – doce

Adaptação da receita da mãe da Tati: http://panelaterapia.com/2012/12/casquinha-de-laranha-cristalizada.html

Ingredientes

6 limões

12 colheres de açúcar mascavo e água

 

Modo de fazer

Descasque os limões sem feri-los. Pode deixar as cascas no formato em que ficaram ao descascar o limão ou cortá-las em tirinhas, quadrados ou a forma que desejar.

Repita 3 vezes o seguinte procedimento: cubra as cascas com água, deixe ferver, mantenha fervendo por uns 30s e escorra a água. Após a terceira água, coloque as cascas numa forma forrada de papel para secar rapidamente.

Em seguida devolva as cascas à panela e junte o acúcar mascavo. Misture bem e deixe liquefazer, mexendo sempre.

Sem para de mexer, coloque em fogo alto até formar uma espuma encima.

Ainda mexendo, abaixe o fogo até dar o ponto, algo próximo ao ponto de fio (experimente escorrer um pouquinho da calda com uma colher de metal fria, quando o terceiro pingo formar um fio é porque está no ponto).

Coloque tudo na forma (não se esqueça de tirar o papel primeiro) e continue mexendo até as casquinhas ficarem soltas na forma. A primeira fase é líquida, a segunda é uma “bola” toda grudada e a final é farelenta. A cor dada pelo mascavo no limão é semelhante a chocolate. O açúcar que eventualmente sobra na forma, com essência natural de limão, é muito saboroso para adoçar café e fazer doces.

Dica:

Minha experiência diz que o tempo de mexer (na fase final) aumenta exponencialmente com o maumento do número de limões ou laranjas. O máximo que ficou confortável para mim fazer foi com a casca de 5 laranjas ou 15 limões

 


porções de afeto: bolo de erva doce e camomila

Cozer porções de afeto é algo que  comecei a fazer há mais de 30 anos, sempre brincando como quem busca reinventar sabores, com a simplicidade do gesto de quem não vai se importar com o resultado de tanto que ama o processo. A vida teve fases bem penosas e somente depois de fazer uma cirurgia de redução de estômago consegui sair de um marasmo cozinheiro que durou mais de 10 anos. Recuperei o gosto por cozinhar e fazer upload de receitas, devorando livros de receitas que nunca vou fazer, mas que servem de combustível para meus remixes. As receitas que sobreviveram à brincadeira (ficaram boas meeesmo) virão fazer parte do blog, espero que gostem.

Bolo de erva doce e camomila

Vegetariano

Esse bolo fiz para ser um calmante, com chás que ajudam a relaxar e fazem bem pra digestão. O amido de milho ajuda a massa a ficar mais leve. Não se preocupe com os cabinhos que vem junto com as flores de camomila: no máximo vão ser uma fibra a mais na receita.

  • Se quiser uma versão vegana, substitua o leite por leite de soja e aumente meio copo, excluindo os ovos da receita.

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Ingredientes

  • 2 ovos
  • 2 colheres de sopa de margarina (pode substituir por óleo de canola, o que afeta o sabor)
  • 2 copos de açúcar mascavo
  • 1 copo de leite
  • 1 copo de amido de milho
  • 1,5 copos de farinha integral (usei a minha mistura, que acrescenta farelo de trigo, farinha branca e uma fibra extra, no caso farinha de berinjela)
  • 1 colher de sopa de erva doce
  • 2 colheres de sopa de camomila
  • 1 colher de chá de gengibre em pó (opcional, realça o sabor dos chás)
  • 1 colher de café de bicarbonato de sódio

Como fazer

  1. Unte uma forma e reserve. Ligue o forno para aquecer
  2. Numa tigela, coloque os ovos, a margarina e o mascavo e misture bem.
  3. Acrescente os ingredientes na sequencia abaixo sem bater, mexendo com a colher:
    • 1/3 do leite
    • ½ copo de farinha
    • ½ copo de amido
    • 1/3 do leite
    • ½ de farinha
    • o resto do amido
    • os chás e o gengibre
    • o fermento
    • o resto do leite
    • o resto da farinha
    • o bicarbonato
  1. Coloque a massa na forma e leve ao forno por pelo menos 20 min. Retire quando assado (coloca o palito de fósforo e sai seco, sem massa grudada).

 


Coleta de água de chuva em apartamento

Eu tinha um big problema: toda vez que chovia muito – e BH repete isso pra caramba todo ano – entrava água da chuva na minha cozinha e, se eu não estivesse lá pra conter, inundava até a salinha de janta anexa.Vou contar como resolvi o problema e ainda ganhei um coletor de água de chuva para lavar o quintal e molhar as plantas (moro num apartamento com área privativa).

Quando comprei o apê, ainda antes de fechar o negócio, sabendo que a região costuma alagar fui até lá para ver até onde a água chegava num dia de tempestade torrencial. Chegou perto da garagem. De fato, a água da rua nunca foi além disso. Não demorou pra perceber que o problema é que metade da água que cai no telhado cai no meu quintal, pelas calhas. Tanta água que já lavei ferramentas de jardim, mãos e outras coisas na água que caía pela calha em abundância. A cozinha ficava 2cm mais alta que a área, quase nada… A primeira solução foi colar um pedaço de espaguete de piscina, daqueles de espuma, fazendo um dique de uns 7cm, o que realmente resolveu o problema, sem danificar nenhum dedão do pé que evidentemente tropeçou nele muitas vezes, mas com uma aparência bem feiosa.

Quando decidi fazer a reforma agora, essa era minha prioridade número 1. 20160206_175803

O projeto foi o seguinte: duas das calhas, as mais longe da garagem, seria unidas acima das janelas e levariam a água a uma bombona de armazenamento com torneira. A terceira, próxima da garagem, seria desviada para lá (já que a garagem é o caminho natural do fluxo da água e mais baixa que minha cozinha). Finalmente, para resolver um problema de empoçamento da água bem em frente à cozinha, refazer o piso e colocar uma canaleta no canto para aumentar a capacidade de escoamento da área privativa, que é um corredor comprido.

Tudo foi feito como planejado. A bombona comprei num depósito, originalmente continha azeitonas (veio com sal e tudo, que cheiro arg!!!). Coloquei a torneira o mais no fundo possível, ainda não resolvi o problema de aproveitar a água abaixo dela. Fiz um ladrão saindo atrás do jardim, onde tenho um canalzinho para escoamento que vai dar direto na canaleta lá na frente. No T que faz a bifurcação entre a bombona e o ladrão, coloquei uma tela de mosquito (criadouro não!).

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Depois disso, já choveu até dizer chega e a água nem chegou perto da cozinha. O suporte da bombona feito pelo pedreiro e revestido com restos de cerâmica da reforma é uma ótima mesa para trabalhos manuais, já estou aproveitando.

 


Reformar a casa ou o espírito?

Estava voltando pra casa de um passeio com os cachorros e com as mãos e braços carregados de “coletados”, quando, ao cumprimentar um vizinho, ele respondeu: está de mudança hoje! Rindo, argumentei que tinha encontrado “coisas legais para reciclar”.  Um ventilador velhíssimo, um balde grande quebrado na borda, prateleiras de geladeira, auto-falante… Devia estar engraçado mesmo. Isso foi ontem e hoje algumas dessas coisas já foram usadas, todas já tem destino.

Faz um mês que comecei a reforma da casa, agora estou pintando e montando a parte elétrica, instalando som, essas coisas. Por conta dessa breve conversa com os vizinhos, pensei que minha reforma poderia ser considerada uma reforma sustentável, pois estou recuperando todos os móveis que posso, otimizando o uso dos materiais e reciclando muita coisa que encontrei na rua há algum tempo. Sem isso, eu não daria conta de pagar a obra. Pesquisei na internet o termo “reforma sustentável” e achei muita coisa bacana, mas nada que desse conta de todos os aspectos da reforma que estou fazendo. A lista é bem variada:

  • estou montando um sistema de coleta de água de chuva a partir das calhas do meu prédio (que descem no meu jardim e inundam minha cozinha quando chove demais). O sistema vai reservar a água numa bombona de 230l, que era um tonel de azeitonas. Instalei uma torneira nesse tonel para poder acoplar a mangueira e molhar minhas plantas. O excesso de água cairá diretamente no jardim, sendo, assim, desviado da minha cozinha e evitando os alagamentos;
  • uma mala velha vai virar um sofá, recheado de caixas de leite;
  • prateleiras estão sendo montadas com pedaços de um beliche quebrado;
  • fiz um cuidadoso estudo da colocação dos azulejos para diminuir ao máximo os recortes e decorrentes perdas;
  • na área de serviço vou aproveitar azulejos antigos e restos dos recortes dos novos;
  • estou fazendo uma cobertura para uma rede, usando colunas que estou fazendo com duas pernas de cama de madeira de lei encontradas na rua e, para completar a altura, colunas feitas com resto de concreto de cada dia da obra colocado em caixas de leite; o revestimento das colunas será feito usando faixas de cortinas velhas e madeira de portas que foram retiradas da casa;
  • restauração e realocação de móveis é palavra de ordem, nada está sendo jogado fora sem que seja absolutamente inútil; na dúvida, deixo encostado para pensar mais um pouco;
  • a reforma visa aumentar a claridade natural do ambiente, com mais janelas e espaços abertos;
  • concentrei as plantas em lugares nos quais a irrigação pela chuva é direta, evitando ter que usar água da torneira para regá-las quando chover.
  • troquei equipamentos para os quais eu tinha pouco uso por horas de trabalho do pedreiro, ganhando de brinde mais espaço em casa;
  • a tinta é toda à base de água, sem cheiro e menos poluente, portanto. Para evitar fazer tintas com cores específicas, que viriam em quantidade maior que a desejada, comprei corante para tintas e usei a branca como base para tudo;
  • os potes para colocar os pincéis são frascos de iogurte de 1l. Também uso desses frascos para guardar as extensões, fica ótimo;
  • Caixas de leite também servem para guardar ferramentas e peças, como mão francesa e luvas. Outras caixas também foram usadas, de outros tamanhos;
  • mantive os puffs que fiz com garrafas pet para a sala de jogos, no ano passado;
  • doei as portas e janelas que sobraram para quem tivesse uso imedato para elas;
  • devolvi a areia e os blocos de cimentos que não foram usados para o depósito

E por aí vai.

Quem disse que não dá pra reformar um rio?


poderia

Era uma vez uma formiga, uma formiguinha mesmo, mas bem gorduchinha porque gostava muito de comer. Era carregadeira e trabalhava muito, mesmo ficando chateada por chamarem-na de preguiçosa, visto que ningueḿ entendia uma gorducha trabalhando daquele jeito. Ela era, portanto, aos olhos dos outros, gorducha – e por isso indesejavel – e preguiçosa – por isso desprezivel. A seus próprios olhos, por não entender muito bem essa coisa toda, achava que devia achar beleza e razão no seu modo de ser, mas queria mesmo que parassem de olhar pra ela assim, porque isso a entristecia não ser bem quista.

Ela nao parou de comer nem de trabalhar e virou uma formiga gigante que, por continuar carregando, se tornou uma ameaça a outras espécies e passou a ser caçada por inimigos. Os amigos achavam que agora, além de ser defeituosa e pouco útil, estava a causar problemas interraciais.

Um dia, a formigona se enfiou num burado e nunca mais saiu.

De vez em quando a solidão era tanta e a tristeza tamanha que não cabiam em seu corpanzil, então se via obrigada a escolher entre colocar um ponto final em sua própria história ou… causar mais estrago e querer voltar mais ainda pro fundo do buraco… Até tentou a primeira alternativa, mas a segunda, embora mais dolorosa pois mantinha a ferida aberta, era eticamente mais aceitável – e tudo que ela queria era aceitação.

Um dia alguém chegou lá e disse: sai daí, pára de escutar quem não te entende, vem comigo. Ela, desajeitada em seu corpanzil cada vez maior, chegou derrubando o coitado que, sem perder a simpatia, aceitou o pedido de desculpas, deu-lhe a mão e foi com ela, divertindo-se na voracidade de sua carregação, rindo de seus atropelos desajeitados e compartilhando os seus. Porque poderia ser simples assim. E todos poderiam ser felizes.


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